Roberto Pereira: “A inspiração é uma tanga. Escrever é ginásio, é treino”

Roberto Pereira desmistifica o processo criativo e defende que escrever não é esperar que algo aconteça, mas sim fazer acontecer todos os dias, com método, resistência e, acima de tudo, trabalho.

Beatriz Colaço

2/6/20263 min read

Convidado de mais uma edição das Saturday Creative Talks, Roberto Pereira partilha uma visão pragmática sobre o processo criativo no guionismo. Perante uma plateia atenta, o autor sublinha que o sucesso na escrita depende do treino e da capacidade de resolver problemas narrativos todos os dias, mesmo quando a criatividade parece falhar.

Sobre a valorização da carreira, o futuro mostra-se risonho e a presença no digital é indispensável para quem quer seguir a área.

“Bem-Vindos a Beirais”, “Pôr do Sol” e “Festa é Festa” são alguns dos projetos mais bem-sucedidos do autor, que partilha nesta talk as aventuras que tem vivido ao longo de mais de 30 anos de carreira.

A escrita como exercício diário

Para Roberto Pereira, a ideia utópica de esperar pela inspiração é "uma tanga". Com a responsabilidade de entregar episódios de telenovelas diariamente, o autor compara o seu ofício a um treino de ginásio. Se queremos ver resultados temos de ir todos os dias, faça chuva, faça sol. “Se estivéssemos à espera da inspiração, íamos no episódio 20 e vai no 400 e tal”, ironizou referindo-se ao sucesso televisivo “Festa é Festa”.

Segundo o guionista, a experiência permite desenvolver técnicas para os dias menos produtivos. E para quem quer aventurar-se no guionismo, o conselho é claro. Escrever sobre temas e situações dos quais têm conhecimento e dominam.

Caso contrário, pode acontecer uma conversa como a que o argumentista teve com a Polícia Judiciária. Quando os inspetores descobriram a profissão de Roberto, a reação foi imediata. “O que vocês escrevem nas novelas quando metem polícia judiciária é tudo ao lado, está tudo mal”. Chegaram mesmo a convidá-lo para acompanhá-los uns dias no trabalho. “É um favor que nos fazem a nós, a vocês, a toda a gente”, provocaram os inspetores da judiciária.

Fora de jogo? O trabalho do argumentista

Ao recordar o seu percurso, iniciado no final dos anos 90, Roberto Pereira aponta a falta de formação prática como um dos grandes entraves para quem quer trabalhar na área. Problema que persiste até aos dias de hoje. “Tudo o que há é muito teórico e muito pouco prático”, afirmou.

Na altura, a escassez de cursos universitários focados em argumento fez com que, juntamente com outro colega, criasse “um género de escola de formação”. Contrataram referências do mercado para lecionar as aulas, o que lhes permitiu ganhar dinheiro e aprender com profissionais experientes.

Considera até que a própria profissão de argumentista não é muito valorizada. E para ilustrar isso conta um episódio que aconteceu com o Ricardo Araújo Pereira. O humorista foi mandado parar pela polícia. No momento em que estavam a preencher os documentos, perguntaram-lhe a profissão, ao que ele respondeu “escrevo as piadas para o Herman”. A polícia não podia ficar mais espantada. “Oh moço, tenha juízo. Então o Herman não escreve as próprias piadas?”, disse perplexo um dos agentes da autoridade.

Apesar de tudo, Roberto Pereira admite que os tempos são outros e que hoje em dia “já se começa a reconhecer mais o papel do autor.”

O digital como currículo

Sobre o futuro do setor, o guionista acredita que atualmente é mais fácil ingressar no meio, já que “as pessoas têm mais formas de mostrar o seu talento”.

Considera que as redes sociais, principalmente, são um ótimo portefólio. Dá o exemplo da página de humor “jjboce”, que através da consistência e criatividade atrai a atenção de vários utilizadores da plataforma.

Para o argumentista, a melhor forma de conseguir um trabalho não é pedir diretamente, mas sim mostrar o que somos capazes de fazer. A visibilidade proporcionada pelo digital faz com que as oportunidades cheguem naturalmente, sem necessidade de apresentações formais.